Toda proposta consome horas de engenharia: leitura do edital, levantamento de quantitativos, cotações, composição de preços, montagem da habilitação. Quando a empresa disputa tudo o que aparece, esse esforço se dilui. E existe um risco pior do que perder: ganhar uma obra que não paga a execução.
A análise Go/No-Go é a decisão, tomada cedo e com critério, de disputar ou não uma licitação. Ela não precisa ser complexa. Precisa ser feita sempre, com os mesmos critérios, e registrada.
1. Aderência técnica e acervo
A primeira pergunta é se a empresa tem os atestados que o edital pede. Na Lei 14.133/2021, a exigência de atestados fica restrita às parcelas de maior relevância ou valor significativo, definidas como as de valor individual igual ou superior a 4% do valor estimado, e os quantitativos mínimos podem chegar a até 50% dessas parcelas (art. 67, §§ 1º e 2º).
- Você tem atestado para cada parcela de maior relevância?
- O quantitativo do seu atestado cobre o mínimo pedido?
- O responsável técnico com a CAT necessária está no quadro da empresa?
Sem acervo, a resposta é No-Go, ou a busca por consórcio, quando o edital permite.
2. Capacidade econômico-financeira
Índices contábeis mínimos, capital social ou patrimônio líquido e garantias são eliminatórios. Confira os índices exigidos com o último balanço antes de qualquer outro trabalho. Se a empresa não atinge o índice, nenhum preço resolve.
3. Margem real
Preço vencedor não é preço viável. Antes de decidir, estime:
- custo direto com base nas composições e cotações atuais;
- BDI compatível com o porte e o risco da obra;
- impacto tributário do regime da empresa no faturamento previsto;
- desconto provável, com base no histórico de disputas semelhantes.
Se a margem que sobra depois do desconto provável não remunera o risco, a decisão é No-Go, mesmo que a obra seja atraente.
4. Capacidade de execução no prazo
Cruze o cronograma da obra com a carteira atual. Equipe, equipamentos e caixa precisam estar disponíveis nos meses de pico. Obra ganha e executada com atraso gera multa, desgaste com o órgão e prejuízo no acervo futuro.
5. Fluxo de caixa
Obra pública costuma exigir capital de giro: mobilização, compra de materiais e folha antes da primeira medição. Avalie o ciclo de medição e pagamento previsto no edital e o histórico de pontualidade do órgão. Um contrato lucrativo no papel pode estrangular o caixa da empresa.
6. Risco do objeto e do contrato
Leia com atenção as cláusulas que transferem risco para a contratada:
- projeto básico incompleto ou desatualizado;
- matriz de riscos desfavorável;
- condições de reajuste e repactuação;
- multas e garantias acima do usual;
- interferências, licenças ambientais e desapropriações pendentes.
Cada risco não precificado é margem que some durante a execução.
7. Concorrência e histórico
Quem costuma disputar esse tipo de obra nesse órgão? Qual foi o desconto médio nas últimas licitações semelhantes? Esses dados mostram se a disputa é realista para a sua estrutura de custos. Com o tempo, o próprio histórico de Go/No-Go da empresa vira a melhor base de comparação.
Como transformar os critérios em decisão
Uma forma simples é dar peso a cada critério e pontuar de 0 a 3. Alguns critérios são eliminatórios: sem acervo técnico ou sem índice contábil, não há pontuação que compense.
| Critério | Tipo | Pergunta-chave |
|---|---|---|
| Aderência técnica | Eliminatório | Temos atestados e CAT para as parcelas de maior relevância? |
| Econômico-financeira | Eliminatório | Atingimos os índices e valores mínimos exigidos? |
| Margem real | Peso alto | Sobra margem depois do desconto provável? |
| Capacidade de execução | Peso alto | Equipe e equipamentos estão livres no período? |
| Fluxo de caixa | Peso médio | Aguentamos o ciclo até as primeiras medições? |
| Risco contratual | Peso médio | Os riscos transferidos estão precificados? |
| Concorrência | Peso médio | O desconto histórico cabe na nossa estrutura de custos? |
Quando decidir
O melhor momento para o Go/No-Go é logo depois da primeira leitura do edital, antes de começar o orçamento detalhado. Uma segunda checagem, com a margem já calculada, confirma a decisão antes da sessão.